Como enganar uma nação em meio a protestos

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Enquanto todos protestavam para a redução da tarifa dos ônibus nas cidades, por melhores condições de saúde, educação, transporte público e segurança urbana, no dia 21 de Junho de 2013, no exato dia em que a Sra. Dilma Rousseff, Presidente da República do Brasil,  proferia seu discurso redigido para minimizar os fatos e conseguir manter os índices de popularidade que caiam vertiginosamente em pouco tempo, esta mesma Sra. fez-nos o favor de aprovar uma lei que faz em parte, o que muitos dos manifestantes destes movimentos pediam para ela não fazer em relação a Proposta de Emenda a Constituição 37 de 2012, a conhecida PEC 37, aprovando a Lei 12830, sancionando a lei de autoria dos Parlamentares: José Eduardo Cardozo, Míriam Belchior e Luis Inácio Lucena Adams, um time de parlamentares pouco expressivos, nos quais não havia grande mídia cobrindo, o que permitiu agirem de modo discreto durante todo este tempo, até a sua aprovação.

É preciso dizer que isto passou pelas duas casas do Congresso Nacional, passou pela Comissão de Constituição e Justiça do Congresso, onde hoje é composta por julgados e condenados do Supremo Tribunal Federal pelo Mensalão, e  foi aprovado por ambas para que possa ter sido sancionado pela Sra. Presidente, o que nos dá claro indício de uma revanche política pelos últimos acontecimentos.

Com um STF composto por onze Ministros, sendo um indicado por José Sarney, um por Fernando Collor, um por Fernando Henrique e oito pelos consecutivos governos do Partido dos Trabalhadores, sendo quatro destes por Lula e já quatro por Dilma, há a possibilidade de, em caso de reeleição do PT para mais um mandato presidencial, ter 100% dos Ministros do Poder Judiciário nacional indicados por um só partido. Até o fim deste governo, dez dos onze Ministros serão indicados pelo PT. Durante três mandatos consecutivos, houve apenas uma Comissão Parlamentar de Inquérito com efeito, a CPI do Mensalão, que, mesmo com maioria no STF, causou dano a imagem do partido o que não surtiu efeito prático ainda, pois nem mesmo José Dirceu, que é condenado e que não exerce cargo ou função eletiva, sem foro privilegiado algum, está se quer preso.

A três governos o Executivo possui maioria no Congresso Nacional, Câmara e Senado! O governo se especializou em impedir CPIs e sem CPIs não há investigação. A única que houve, a do Mensalão no governo Lula, deu até agora em pizza e em represália a estas ações do Ministério Público, foi criada a PEC 37 de 2012, que limita os direitos de investigação do Ministério Público Federal. Pois bem, mas poucos conheciam ou se quer sabiam desta que é agora é lei, já é lei, já foi sancionada. O que ela faz na prática?  O que eu entendi, é que o Delegado vai ser o único com direito legal de investigar a abrir inquérito contra outros policiais, retirando este direito sim, do Ministério Público, artigo segundo, parágrafo primeiro. O artigo terceiro só reforça isto, não aparentando ser importante de modo isolado, mas, no contexto permite esta interpretação. Na prática, infelizmente, sim, reduz autoridade por parte dos MPs, na mesma linha da PEC 37 e pior, já foi aprovado e sancionado, repare a data, em meio aos protestos do Brasil contra a PEC 37, no dia do discurso nacional da Presidente.

Contra todos os protestos, a Sra. Dilma enganou o povo e o Ministério Público e sancionou algo que faz parcialmente o que a PEC 37 busca fazer! O risco aqui é real, cria-se quase que um caso de um Estado de Exceção, onde o Executivo teria controle sobre ele mesmo em investigações criadas por órgãos que são por ele liderados. Tais situações são como por a raposa cuidando dos galinheiros, um risco a própria democracia e lembre-se, Hitler chegou ao poder via democracia e de modo legal e legítimo, por conta de brechas legais. Tal lei fere o princípio de separação dos três poderes, pois coloca no Executivo o controle sobre si mesmo, sobre suas ações e posturas. Isto, do modo que foi feito, na data que foi feito e diante do atual quadro nacional, foi proposital, não foi ao acaso, foi um ato deliberado e intencional, o que o torna mais grave ainda!

Tal situação, não nos permite assegurar de que teremos se quer eleições democráticas em 2014, pois diante de tais quadros sendo formados as regras do jogo estão mudando constantemente, mesmo debaixo de protestos e nas sobras dos grandes eventos desportivos e sociais nacionais. O povo vem sendo enganado e o risco de um golpe de Estado nas formas da lei, na frente dos olhos do povo brasileiro é real. Lamentavelmente! Urge a eleição no Brasil, urge a alternância de poder no Brasil, mas, diante do quadro existente, nada assegura de que ela ocorrerá de fato, pois quem não deve não teme investigação, não manipula dados ou esconde leis em eventos de grande dimensão, isto é ato ou postura de ditador, não de democrata! Se, de fato as pesquisas de opinião são tão favoráveis aos governos da Dilma e do PT, porque temer investigação criminal por parte do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal? Porque não permitir Comissões Parlamentares de Inquérito? O governo paga de correto não por não ter corrupção, mas por não permitir a investigação, pura e simplesmente! Lamento informar ao povo brasileiro, mas não vivemos mais em uma democracia! Os fatos provam isto, infelizmente, sem medo de errar ou exagerar.

Abaixo a transcrição da lei e a fonte:

Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI Nº 12.830, DE 20 DE JUNHO DE 2013.

Mensagem de veto

Dispõe sobre a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o  Esta Lei dispõe sobre a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia.

Art. 2o  As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado.

§ 1o  Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade policial, cabe a condução da investigação criminal por meio de inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei, que tem como objetivo a apuração das circunstâncias, da materialidade e da autoria das infrações penais.

§ 2o  Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem à apuração dos fatos.

§ 3o  (VETADO).

§ 4o  O inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei em curso somente poderá ser avocado ou redistribuído por superior hierárquico, mediante despacho fundamentado, por motivo de interesse público ou nas hipóteses de inobservância dos procedimentos previstos em regulamento da corporação que prejudique a eficácia da investigação.

§ 5o  A remoção do delegado de polícia dar-se-á somente por ato fundamentado.

§ 6o  O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias.

Art. 3o  O cargo de delegado de polícia é privativo de bacharel em Direito, devendo-lhe ser dispensado o mesmo tratamento protocolar que recebem os magistrados, os membros da Defensoria Pública e do Ministério Público e os advogados.

Art. 4o  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 20 de junho de 2013; 192o da Independência e 125o da República.

DILMA ROUSSEFF
José Eduardo Cardozo
Miriam Belchior
Luís Inácio Lucena Adams

Este texto não substitui o publicado no DOU de 21.6.2013

Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12830.htm

Para arrematar: A PEC37  não é a única que nos causa dano em caso de um golpe de Estado, a PEC 33 de 2011 causa igual ou pior dano, pois retira do STF o direito de julgar atos do Legislativo Federal, o que significa dizer que, com maioria plena no Congresso nas duas casas, Câmara e Senado, o Executivo teria total controle dos seus atos sem direito de questionamento sobre legitimidade ou não dos mesmos por parte do poder que julga. Como vemos, o ataque contra os poderes da nação vem de longe e causa dano real, não é de agora e é intencional. Não menosprezem isto tudo e cuidado, pois estes atos de vandalismo que vem ocorrendo nos protestos só favorecem a um grupo, o próprio governo, que com pretexto para por o Exército nas ruas promoveria facilmente um Estado de Exceção, capaz de destituir o Congresso Nacional, o STF e até a Constituição Federal, dando plenos poderes ao Executivo para convocar as Forças Armadas Nacionais para “defender a nação” dela mesma e, sendo assim, permitir até mesmo a exclusão, por tempo indeterminado de pleitos eleitorais e de partidos políticos ou direitos políticos no Brasil. Ou seja, a violência nas ruas favorece ao governo e só ao governo!

Percebam, o povo pedia paz, queria protestar, os vândalos não. Porque?! Pensem! Evitem novos protestos, eles agora precisam vir com o voto democrático, com a alternância de poder natural, se isto ainda for possível de acontecer, esperamos que sim! Espero, sinceramente estar errado quanto a possibilidade de golpe político, mas os fatos, as leis aprovadas ou em via de aprovação e as posturas políticas adotadas me forçam a alertar o povo. Não faço isto em nome de partido algum, faço como técnico que sou e do respeito que tenho a democracia e a repartição dos poderes republicanos, pelo bem do Brasil. Para que não se repita 1964, evitem conflitos e votem certo, oxigenem o poder do Brasil, não se deixem enganar por Copas ou eventos quaisquer, voto é coisa séria e mais, voto nulo não anula eleição, reduz o coeficiente eleitoral e permite que quem está no poder tenha menos um voto contra si, na prática, ajuda a manter no poder quem lá está, favorece o governante, por isto, votem certo e fiscalizem, se ainda tiveres este direito em 2014, espero que tenhamos!

Antonio Roberto Vigne

Cientista Político – Colunista Político

Por que Dilma não anistia a divida do Cacau?

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983955_4378115269370_324514602_nessa pergunta é feita, não só pelos donos de fazendas,  mas por toda população do sul e extremo sul da Bahia.   Queremos resposta!

"As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis"

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O Prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios económicos à saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.

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Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresas farmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.

A investigação pode ser planeada?

Se eu fosse Ministro da Saúde ou o responsável pelas Ciência e Tecnologia, iria procurar pessoas entusiastas com projectos interessantes; dar-lhes-ia dinheiro para que não tivessem de fazer outra coisa que não fosse investigar e deixá-los-ia trabalhar dez anos para que nos pudessem surpreender.

Parece uma boa política.

Acredita-se que, para ir muito longe, temos de apoiar a pesquisa básica, mas se quisermos resultados mais imediatos e lucrativos, devemos apostar na aplicada ...

E não é assim?

Muitas vezes as descobertas mais rentáveis foram feitas a partir de perguntas muito básicas. Assim nasceu a gigantesca e bilionária indústria de biotecnologia dos EUA, para a qual eu trabalho.

Como nasceu?

A biotecnologia surgiu quando pessoas apaixonadas começaram a perguntar-se se poderiam clonar genes e começaram a estudá-los e a tentar purificá-los.

Uma aventura.

Sim, mas ninguém esperava ficar rico com essas questões. Foi difícil conseguir financiamento para investigar as respostas, até que Nixon lançou a guerra contra o cancro em 1971.

Foi cientificamente produtivo?

Permitiu, com uma enorme quantidade de fundos públicos, muita investigação, como a minha, que não trabalha directamente contra o cancro, mas que foi útil para compreender os mecanismos que permitem a vida.

O que descobriu?

Eu e o Phillip Allen Sharp fomos recompensados pela descoberta de introns no DNA eucariótico e o mecanismo de gen splicing (manipulação genética).

Para que serviu?

Essa descoberta ajudou a entender como funciona o DNA e, no entanto, tem apenas uma relação indirecta com o cancro.

Que modelo de investigação lhe parece mais eficaz, o norte-americano ou o europeu?

É óbvio que o dos EUA, em que o capital privado é activo, é muito mais eficiente. Tomemos por exemplo o progresso espectacular da indústria informática, em que o dinheiro privado financia a investigação básica e aplicada. Mas quanto à indústria de saúde... Eu tenho as minhas reservas.

Entendo.

A investigação sobre a saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.

Explique.

A indústria farmacêutica quer servir os mercados de capitais ...

Como qualquer outra indústria.

É que não é qualquer outra indústria: nós estamos a falar sobre a nossa saúde e as nossas vidas e as dos nossos filhos e as de milhões de seres humanos.

Mas se eles são rentáveis investigarão melhor.

Se só pensar em lucros, deixa de se preocupar com servir os seres humanos.

Por exemplo...

Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença ...

E por que pararam de investigar?

Porque as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.

É uma acusação grave.

Mas é habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira da indústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.

Há dividendos que matam.

É por isso que lhe dizia que a saúde não pode ser um mercado nem pode ser vista apenas como um meio para ganhar dinheiro. E, por isso, acho que o modelo europeu misto de capitais públicos e privados dificulta esse tipo de abusos.

Um exemplo de tais abusos?

Deixou de se investigar antibióticos por serem demasiado eficazes e curarem completamente. Como não se têm desenvolvido novos antibióticos, os microorganismos infecciosos tornaram-se resistentes e hoje a tuberculose, que foi derrotada na minha infância, está a surgir novamente e, no ano passado, matou um milhão de pessoas.

Não fala sobre o Terceiro Mundo?

Esse é outro capítulo triste: quase não se investigam as doenças do Terceiro Mundo, porque os medicamentos que as combateriam não seriam rentáveis. Mas eu estou a falar sobre o nosso Primeiro Mundo: o medicamento que cura tudo não é rentável e, portanto, não é investigado.

Os políticos não intervêm?

Não tenho ilusões: no nosso sistema, os políticos são meros funcionários dos grandes capitais, que investem o que for preciso para que os seus boys sejam eleitos e, se não forem, compram os eleitos.

Há de tudo.

Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais farmacêuticas que financiam as campanhas deles. O resto são palavras…

Publicado originalmente no La Vanguardia.